"Os dragões não permanecem. Os dragões são apenas anunciação de si próprios. Eles se ensaiam eternamente, jamais estréiam. As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena. Eles se esboçam e se esfumam no ar, não se definem. O aplauso seria insuportável para eles".
Caio F.
Essa é a mais pura verdade. Mas fechei os olhos e quando me dei conta eram cinco horas de uma típica madrugada de agosto. Mas o cheiro de hortelã e alecrim denunciava sua visita. É que eu também tenho um dragão que mora comigo. Não, isso não é verdade, como diria Caio F. Talvez ele me use, vestindo a casca singela que me envolve para improváveis aparições. Geralmente é num sonho. Costumo sonhar com dragões. Mas eles não têm a aparência dos dragões ilustrados. Os meus dragões não assustam. Costumam fazer estragos, mas são incapazes de grandes males. Eles fogem do paraíso, como avisou o Caio, por não se adaptarem à perfeição. O paraíso dos dragões é o conflito, nunca a harmonia. Por isso Caio escreveu em seu conto que, pessoas banais como nós, tentam inventar belezas artificiais para prendê-los... tudo em vão, pura fantasia. Os dragões de verdade detestam refeições frugais como essa que preparo agora em fogo brando, enquanto escrevo esse post. Olham de soslaio e até sentem algum cheiro mais perfumado que escapa da panela... depois nos deixam, como sempre. Mirando longe, pontos imaginários no espaço.
Eu tenho um dragão que me habita. Mas nem por isso entendo melhor o que isso significa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário