"Desculpa, digo, mas se eu não tocar em você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só essa vontade quase simples de estender o braço para tocar você, faz tempo demais que estamos aqui parados conversando nesta janela, já dissemos tudo que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação impressão ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e, com a ponta dos meus dedos, tocar você, natural que seja assim: o toque, depois da compreensão que conseguimos, e agora".
Caio Fernando Abreu, in Anotações Sobre um Amor Urbano
Leio Ovelhas Negras pela quarta vez, talvez em busca de outros sentidos. Estava no meio de uma pesquisa sobre Ana C. quando me deparei com uma frase do Caio falando dela, da convivência dos dois durante a permanência dele em Santa Tereza no início dos anos 80... li-os separadamente e depois tentei imaginar os abismos maiores que os istmos.
Será que Ana C. gostava de samba? Tão inglesa... será que ia ao Parque Lage, caminhar no jardim, final da tarde, escurecendo? Lembrei do parque, um dia, final da tarde, escurecendo. Hoje ou amanhã nem sei direito, um ano. Vigília consentida na madrugada em busca de novas histórias para o filme. Tantas mortes...
"O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, ah, tão presa! Esses mosquitos que
não largam! Minhas saudades ensurdecidas por
cigarras! O que faço aqui no campo declamando aos
metros versos longos e sentidos? Ah que estou
sentida e portuguesa, e agora não sou mais veja, não
sou mais severa e ríspida: - agora sou profissional".
Ana Cristina Cesar, in A Teus Pés
P.S.: o seu olhar melhora o meu. Nunca esqueça disso.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
domingo, 30 de agosto de 2009
O ano de 1968 é considerado seminal para a história contemporânea e já foi tema de livros, filmes, peças de teatro, músicas. Lembro uma vez ter lido um texto de Olgária Mattos sobre a paixão das barricadas, os sentidos amplos das palavras de ordem, o maio de 68 em Paris. Hoje assisti ao intenso "Amantes Constantes" ("Les Amants Réguliers", 2004), de Philippe Garrel. Sobre o tema já havia visto as versões de Louis Malle ("Loucuras de uma Primavera", 1969) e Bernardo Bertolucci ("Os Sonhadores", 2003) e respeito ambas. Mas o filme de Garrel nos comunica mais nas suas três horas de pura aridez poética.
O protagonista, vivido por Louis Garrel (filho do diretor), é um poeta que transita entre as agitações revolucionárias das ruas e uma "república" de artistas e desocupados burgueses. O ópio, as divagações filosóficas e a necessidade de ação (são inúmeras as perseguições policiais pelos becos e telhados de uma Paris literalmente em chamas) alimentam boa parte das cenas, num clima nouvelle vague que vai da fotografia em preto e branco até o ar blasé dos personagens principais. Mas nada me tocou tanto quanto à educação sentimental de François e Lilie. Como eles se encontram e se perdem, como eles se adivinham e ao mesmo tempo se desconhecem, evidenciando o quanto somos ignorantes em matéria de amor.
Quando as luzes acendem, percebemos que tanto o mundo quanto nós, seres humanos, continuamos incorrendo nos mesmos erros: passamos da euforia à desilusão com a mesma intensidade. Acreditamos e deixamos de acreditar com uma facilidade quase irresponsável. Em tempos de descompasso no mundo, o filme de Philippe Garrel é obrigatório. Nos mostra como um ano divisor-de-águas como foi 68, de fato, não acabou. Seu projeto (semente?), a revolução dos valores, está apenas ensaiando novas formas de eclodir e vingar, para quem sabe, um dia, florir.
sábado, 29 de agosto de 2009
“Qual é mesmo a palavra secreta?”
Clarice escrevia para entender. Ela precisava se expressar através das palavras para não enlouquecer de vez.
Descobri que às vezes é preciso dizer adeus para finalizar uma história (de amor?). Digo isso porque me ressinto até hoje com uma não-despedida.
Era tarde, era abril, chovia? Já não sei. A memória me trai o tempo todo. Ultimamente é cinza quase o ano inteiro, portanto, vamos esquecer o calendário.
De uma lembrança ancestral, porém, nunca me livrei: o medo do escuro. Por isso penso que chorei o suficiente na infância, antes do sono, no escuro do quarto.
Nessas horas qualquer alegria ficava triste. Ainda sinto isso. Quando algo como a felicidade me ronda e eu não consigo alcançar. Desejos apressados (quase raros).
(...)
Não devemos dar margem aos devaneios. É que ando solta e frágil feito papel em ventania. Não tenho porto, parada, não tenho ânimo.
Estou quase um verso soprado.
Já não imagino "dois" como antes. Desde aquele abril, agosto ou será que foi um dezembro? Sem paciência para escrever, desencano das possibilidades de entendimento.
Prefiro concentrar minhas forças na perdição, transformando em parceiro o velho medo do escuro, renovando por dentro os votos de que não preciso mais de nós.
Nem do adeus para chegar ao fim da história.
P.S.: a imagem de Clarice escrevendo me deixou muda (numa felicidade clandestina).
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
O que eu preciso agora é voltar ao estado da paixão. É reinventar uma maneira de seguir em frente desafiada, sem temor, apenas com a vontade de chegar ao outro lado. Tenho necessidade de tirar os pés do chão vez em quando. Olhar de frente para o que não conheço e cumprimentar – muito prazer!
Mas esqueço dos tropeços da Alice e saio correndo a cada passo largo do coelho. Noites de beijos, de sombras, de bilhetes amassados com nomes e telefones de quem sequer lembro a expressão dos olhos. Eu até quero a vertigem. Mas ainda sonho com uma vida mais calma, sem tantas máscaras diárias e sofrimentos desnecessários. Não suporto mais acordar com raiva de mim.
Hoje resolvi lavar roupa. Toda a roupa suja que havia acumulado nos últimos dias. Moro num quarto tão pequeno que ele parece desarrumado o tempo todo. Já não gosto mais de ficar esperando o próximo trem. Preciso voltar a ter foco. A acreditar em mim, sem necessariamente ancorar meus navios em portos alheios.
Estou farta das muitas palavras e da pouca ação!
Mas esqueço dos tropeços da Alice e saio correndo a cada passo largo do coelho. Noites de beijos, de sombras, de bilhetes amassados com nomes e telefones de quem sequer lembro a expressão dos olhos. Eu até quero a vertigem. Mas ainda sonho com uma vida mais calma, sem tantas máscaras diárias e sofrimentos desnecessários. Não suporto mais acordar com raiva de mim.
Hoje resolvi lavar roupa. Toda a roupa suja que havia acumulado nos últimos dias. Moro num quarto tão pequeno que ele parece desarrumado o tempo todo. Já não gosto mais de ficar esperando o próximo trem. Preciso voltar a ter foco. A acreditar em mim, sem necessariamente ancorar meus navios em portos alheios.
Estou farta das muitas palavras e da pouca ação!
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
O certo, o errado e o que eu não quero.
Já tive embates de todo tipo comigo mesma. Desde os primeiros, em que me confrontava com as fraquezas (meus medos e meus vícios) até os últimos que ainda se relacionam a fraquezas, mas ganham cada vez mais honestidade de mim para comigo. Tudo isso pra dizer que, a essa altura da vida, tenho visto claramente o que me parece certo e errado (pelo menos sob meu ponto de vista) e mesmo assim continuo tomando atitudes que me entristecem. Não suporto mais ficar buscando desculpas para cada ato falho, para cada pecado ("pecadinhos, que de tão pequenininhos não fazem mal a ninguém"), para cada incongruência...
Certo, ninguém é perfeito. Mas precisamos cometer sempre os mesmos erros?
Desde a última semana tenho me concentrado numa tentativa: apesar de ainda não saber o que de fato quero, vou procurar definir o que eu não quero. É claro que vou dar muito "murro-em-ponta-de-faca", acordar de manhã prometendo: "hoje-vai-ser-diferente" (e fazer tudo de novo), mas estou determinada a esse compromisso: ser fiel aos meus princípios mais que aos meus instintos, me proteger e, com isso, procurar o máximo de conforto possível para o que chamam de alma e que eu prefiro tratar como consciência. Não existe certo, errado ou meio-termo... só existe respeito a si mesmo! Sempre!
Certo, ninguém é perfeito. Mas precisamos cometer sempre os mesmos erros?
Desde a última semana tenho me concentrado numa tentativa: apesar de ainda não saber o que de fato quero, vou procurar definir o que eu não quero. É claro que vou dar muito "murro-em-ponta-de-faca", acordar de manhã prometendo: "hoje-vai-ser-diferente" (e fazer tudo de novo), mas estou determinada a esse compromisso: ser fiel aos meus princípios mais que aos meus instintos, me proteger e, com isso, procurar o máximo de conforto possível para o que chamam de alma e que eu prefiro tratar como consciência. Não existe certo, errado ou meio-termo... só existe respeito a si mesmo! Sempre!
Caríssima,
como te disse uma vez, vivo de presságios. Essas semanas têm sido corridas, com muita coisa acontecendo. Mas ainda teimo em arranjar tempo de olhar pro céu. E o céu acaba nos contando tantas coisas. Hoje mesmo saí antes das sete da manhã de casa. Céu azul, nuvens descuidadas.
Em dias assim vêm à cabeça pensamentos esquecidos. Vontade de retomar planos, juntar palavras de dentro e de fora, buscar simplicidade. Não temer as frases feitas nem os sentimentos desencontrados.
Já se permitiu desejos assim, Clarice? De voltar no tempo e aproveitar dele só as coisas boas? De adiantar o tempo e viver nele tudo que for realmente significativo? Olhar para o presente e lembrar de agradecer tudo: plenitude, serenidade, harmonia.
Ando assim. Como esses trovões e relâmpagos do meio da tarde. Tentando lembrar a última vez que me senti realmente amada, desejada, querida. Tentando colar todos os fragmentos e reunir minha história num único enredo: feliz, raro, meu de fato.
como te disse uma vez, vivo de presságios. Essas semanas têm sido corridas, com muita coisa acontecendo. Mas ainda teimo em arranjar tempo de olhar pro céu. E o céu acaba nos contando tantas coisas. Hoje mesmo saí antes das sete da manhã de casa. Céu azul, nuvens descuidadas.
Em dias assim vêm à cabeça pensamentos esquecidos. Vontade de retomar planos, juntar palavras de dentro e de fora, buscar simplicidade. Não temer as frases feitas nem os sentimentos desencontrados.
Já se permitiu desejos assim, Clarice? De voltar no tempo e aproveitar dele só as coisas boas? De adiantar o tempo e viver nele tudo que for realmente significativo? Olhar para o presente e lembrar de agradecer tudo: plenitude, serenidade, harmonia.
Ando assim. Como esses trovões e relâmpagos do meio da tarde. Tentando lembrar a última vez que me senti realmente amada, desejada, querida. Tentando colar todos os fragmentos e reunir minha história num único enredo: feliz, raro, meu de fato.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Dueto
Chico Buarque
Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no
evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos
dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário
nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas,
projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz
Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela
Está no seguro, pixaram no muro, mandei fazer um
cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário
nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas,
projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz
Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis
Consta nos Ovnis, no Pravda, na Vodca
P.S.: pq tem dias que bate saudade. Da voz no ouvido, do violão. Saudade daquele adeus não dito. Lembra? Você e eu... lá... era o alto, a madrugada, as estrelas. Cúmplices, em dueto. Eu imaginava que seria pra sempre . E é. Leio nossos horóscopos todos os dias. Prevejo, antevejo e beijo as recordações.
"Serás o meu amor... serás a minha paz..."
Chico Buarque
Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no
evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos
dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário
nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas,
projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz
Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela
Está no seguro, pixaram no muro, mandei fazer um
cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário
nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas,
projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz
Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis
Consta nos Ovnis, no Pravda, na Vodca
P.S.: pq tem dias que bate saudade. Da voz no ouvido, do violão. Saudade daquele adeus não dito. Lembra? Você e eu... lá... era o alto, a madrugada, as estrelas. Cúmplices, em dueto. Eu imaginava que seria pra sempre . E é. Leio nossos horóscopos todos os dias. Prevejo, antevejo e beijo as recordações.
"Serás o meu amor... serás a minha paz..."
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Aimee Mann canta sem parar nessa manhã gelada. Os dias têm amanhecido mergulhados nessa bruma. E eu leio Nuno Ramos que diz: "quando foi que amei o intermediário, corpo viscoso e provisório, nem fome, nem alimento?" Quando é que amamos o transitório, sem desejar permanência?
Me pergunto, entre uma caneca de chá e um pedaço de bolo de cenoura. Acho que isso não existe, pelo menos pra mim. Adoro pensar nos próximos capítulos, no desenvolvimento dos personagens ao longo da narrativa.
Sou feita dos lugares-comuns de um filme romântico, por isso me conformo em ser assim, contraditória. Preciso de um aconchego. Na verdade, preciso me apaixonar por um novo projeto, uma nova forma de expressão. Seremos assim mesmo tão dependentes dos desafios? O que me dizem os astros?
Não, não sei ser fria como me pedem. Adoro colo, abraço, beijo colado. Gosto de fazer tempurá de camarão enquanto penso no molho de gengibre e capim-santo que melhor vai acompanhar o prato. É disso que gosto. Desse fogo lento que envolve a cozinha e vez-em-quando me toca também.
É disso que gosto. Do toque das palavras que quase se materializam mas, como diz Nuno Ramos, já não nos oferecem qualquer perigo de engano.
Me pergunto, entre uma caneca de chá e um pedaço de bolo de cenoura. Acho que isso não existe, pelo menos pra mim. Adoro pensar nos próximos capítulos, no desenvolvimento dos personagens ao longo da narrativa.
Sou feita dos lugares-comuns de um filme romântico, por isso me conformo em ser assim, contraditória. Preciso de um aconchego. Na verdade, preciso me apaixonar por um novo projeto, uma nova forma de expressão. Seremos assim mesmo tão dependentes dos desafios? O que me dizem os astros?
Não, não sei ser fria como me pedem. Adoro colo, abraço, beijo colado. Gosto de fazer tempurá de camarão enquanto penso no molho de gengibre e capim-santo que melhor vai acompanhar o prato. É disso que gosto. Desse fogo lento que envolve a cozinha e vez-em-quando me toca também.
É disso que gosto. Do toque das palavras que quase se materializam mas, como diz Nuno Ramos, já não nos oferecem qualquer perigo de engano.
domingo, 23 de agosto de 2009
... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava o ônibus. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteiro, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.
sábado, 22 de agosto de 2009
Tenho feito grandes (re)descobertas nos últimos dias. Dançar hipnotizada no Rose Bom Bom* até quatro da manhã como se os anos 80 não tivessem acabado; tomar banho de chuva e sorrir pro céu desabando sobre mim; ir sozinha num mesmo dia ao teatro e descobrir que isso é ótimo; ser pedida em casamento (rsrsrsrs) e dizer: -não, muito obrigado! E mais que tudo: reinventar uma antiga alegria de viver que embrulha tudo: liberdade, auto-estima, compreensão de muitas dores e delícias, verdadeiro sentimento do mundo.
Leio, ouço, vejo, danço, cozinho, abraço, beijo... e também abro a porta pra primavera, pra mim...
Leio, ouço, vejo, danço, cozinho, abraço, beijo... e também abro a porta pra primavera, pra mim...
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
O sol cedeu lugar à chuva. Tudo cinza e frio. Mas isso bem que me agrada. Depois de férias pronlongadas, estou de volta à rotina. Um fim de semana ainda me resta pra perceber outros tons no céu e reencontrar amigos queridos. Isso é bom.
...
Ando ampla, sem vontade de grandes lamentações ou autopiedade. O meu tempo é hoje, embora continue com a mania de olhar através de frestas. Nesse outro tempo, revejo de soslaio antigos sorrisos e me alegro com belezas que um dia visitaram minha vida.
Mas tudo isso também faz parte. Não é assim que acabamos por guardar as memórias mais significativas? Não é por isso que fazemos compotas de frutas raras, que ficam escassas em determinadas estações?
Fico me perguntando agora o que quero, de fato, da vida? Estabilidade? Fortes emoções? Respostas francas? Evasivas? Sei que sou sim, cheia de subterfúgios... mas uma hora cansa. Não seria mais fácil definir papéis? Cumprir certo roteiro? Pensar num final feliz?
...
Você diz que sou romântica. Eu me acho cada vez mais dissimulada em matéria de amor...
...
Ando ampla, sem vontade de grandes lamentações ou autopiedade. O meu tempo é hoje, embora continue com a mania de olhar através de frestas. Nesse outro tempo, revejo de soslaio antigos sorrisos e me alegro com belezas que um dia visitaram minha vida.
Mas tudo isso também faz parte. Não é assim que acabamos por guardar as memórias mais significativas? Não é por isso que fazemos compotas de frutas raras, que ficam escassas em determinadas estações?
Fico me perguntando agora o que quero, de fato, da vida? Estabilidade? Fortes emoções? Respostas francas? Evasivas? Sei que sou sim, cheia de subterfúgios... mas uma hora cansa. Não seria mais fácil definir papéis? Cumprir certo roteiro? Pensar num final feliz?
...
Você diz que sou romântica. Eu me acho cada vez mais dissimulada em matéria de amor...
E hoje eu acordei enfrentativa e lúcida como há muito não se via (medo!). Sabe quando a brisa da madrugada sopra coisas interessantes durante o sono? Releio as cartas do Caio F. e me assombro com algumas constatações. Será que maturidade é isso? Perceber a cada dia, mais e mais, nossa fragilidade diante do mundo? Mas como disse: lúcida. Sem aquelas alegorias que vez-em-quando povoam minha cabeça e fazem nublar meus pensamentos e minhas vontades. Manhã com café na padaria e sorriso nos lábios atravessando a rua.
E tenho dito!
Bom dia.
E tenho dito!
Bom dia.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Impossível ouvir uma música do passado e não lembrar de paisagens e pessoas que ficaram coladas na memória. Hoje não li no ônibus. Resolvi mergulhar na melodia sofrida do Elliott Smith. Mas não é desse bardo encantadoramente triste que eu queria falar. É de uma das músicas do disco A Beira e o Mar, da Bethânia, lançado em 1984. Falo disco porque a primeira versão que tive da obra foi um LP.
A música?
Chama: Pra Eu Parar de Me Doer, do Milton e do Fernando Brant. Como boa parte do repertório, veio de um show antológico da Bethânia chamado A Hora da Estrela, roteirizado e dirigido pelo Naum Alves de Souza. É impossível não enxergar Macabéa e Clarice ao ler a letra e ouvir a sentida melodia. Isso me lembra que eu conheci livro e canção sem saber da ligação entre ambos, tudo no mesmo ano, não é louco?
Ouvi de novo a música ontem, ao baixar o álbum pro player. Fiquei imaginando em como o mundo dá voltas e acaba por não sair do lugar. Em como sou a mesma garota perdida daquele outro tempo, entre serras e noites de lua cheia. Sonhando em acordar uma madrugada e, pulando a janela do quarto, dar de cara com um mundo diferente. Inventado, imaginado.
Mas aprendi que a única forma de criar um mundo novo é dar tempo ao tempo.
Pra Eu Parar de Me Doer
(Milton Nascimento-Fernando Brant)
Mais que a dor do amor
Viver a dor, me doeu
Eu quero mesmo é ser feliz
Amar, amor
Quem não semear,
Não vai colher
Ai, de quem é um
E nunca será dois
Por não saber...
Quem irá me valer?
São pessoas, é a caminhada
Quem irá me valer?
São meus sonhos no pó da estrada
Quem irá me valer?
É o sorriso que guardo comigo
Quem irá me valer?
É o segredo de fazer amigos...
A música?
Chama: Pra Eu Parar de Me Doer, do Milton e do Fernando Brant. Como boa parte do repertório, veio de um show antológico da Bethânia chamado A Hora da Estrela, roteirizado e dirigido pelo Naum Alves de Souza. É impossível não enxergar Macabéa e Clarice ao ler a letra e ouvir a sentida melodia. Isso me lembra que eu conheci livro e canção sem saber da ligação entre ambos, tudo no mesmo ano, não é louco?
Ouvi de novo a música ontem, ao baixar o álbum pro player. Fiquei imaginando em como o mundo dá voltas e acaba por não sair do lugar. Em como sou a mesma garota perdida daquele outro tempo, entre serras e noites de lua cheia. Sonhando em acordar uma madrugada e, pulando a janela do quarto, dar de cara com um mundo diferente. Inventado, imaginado.
Mas aprendi que a única forma de criar um mundo novo é dar tempo ao tempo.
Pra Eu Parar de Me Doer
(Milton Nascimento-Fernando Brant)
Mais que a dor do amor
Viver a dor, me doeu
Eu quero mesmo é ser feliz
Amar, amor
Quem não semear,
Não vai colher
Ai, de quem é um
E nunca será dois
Por não saber...
Quem irá me valer?
São pessoas, é a caminhada
Quem irá me valer?
São meus sonhos no pó da estrada
Quem irá me valer?
É o sorriso que guardo comigo
Quem irá me valer?
É o segredo de fazer amigos...
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
fazendo as pases com a (minha) realidade.
Não lembro mais o dia da semana. Lembro ter sentido uma dor enorme. Mas não era no peito. Era uma dor difusa, que nascia na ponta dos dedos e se espalhava pelos braços e pernas até atingir em cheio minha cabeça. Tentei usar a cabeça, ser racional. Tudo que consegui foi desligar o computador e ir pra fora de casa. Queria sair dali o quanto antes. Queria chorar na rua, enquanto não passava ninguém.
Lembro que fui a pé, por um bom tanto. Um ou outro passante observava minhas lágrimas caindo e meu rosto muito vermelho. Não lembro mais do ano. Mas lembro que era agosto. E em agosto, as dores são mais sentidas. Cheguei em casa e tudo que fiz foi tirar a roupa e cair na cama morna, quase quente. A mesma cama de antes da perdição.
Pausa. Respiro.
Quase fim de 2009. Resolvo que vou de novo dar um rumo aos meus dias. Chega de descompromisso, de farras homéricas, de infelicidade no trabalho. Chega de saudade. Tenho poucos meses para deixar tudo em ordem: do saldo ao coração rasgado. Passando pelo novo emprego que consegui, pela intolerância aos meus chefes imediatos, pelas frases mal-costuradas dos últimos tempos.
Estou ciente de que não sou uma pessoa infeliz. E contente em ter o que tenho diante de um mundo cada vez mais desbotado. Mistério, como diz o Gil, sempre há de pintar por aí... mas quero a sorte de dias mais tranqüilos e menos embaraços na hora de bater de frente com uma promessa concreta de felicidade. Não sou velha. Não sou jovem. Tenho o melhor dos dois mundos (como disse a alguns poucos que me são caros).
Não vou sujar minha barra tentando limpar a sujeira dos outros. Tenho uma lista enorme de motivos pra ser feliz. Vou aproveitar minha energia para partilhar mais, para escrever e-mails a amigos queridos, para conversar horas com minha irmã ao telefone, para voltar a cozinhar e morrer de prazer com isso. Para escrever, ler, ouvir, ver e sentir como sempre fiz: acreditando tanto na fantasia que ela acaba se transformando em realidade.
Lembro que fui a pé, por um bom tanto. Um ou outro passante observava minhas lágrimas caindo e meu rosto muito vermelho. Não lembro mais do ano. Mas lembro que era agosto. E em agosto, as dores são mais sentidas. Cheguei em casa e tudo que fiz foi tirar a roupa e cair na cama morna, quase quente. A mesma cama de antes da perdição.
Pausa. Respiro.
Quase fim de 2009. Resolvo que vou de novo dar um rumo aos meus dias. Chega de descompromisso, de farras homéricas, de infelicidade no trabalho. Chega de saudade. Tenho poucos meses para deixar tudo em ordem: do saldo ao coração rasgado. Passando pelo novo emprego que consegui, pela intolerância aos meus chefes imediatos, pelas frases mal-costuradas dos últimos tempos.
Estou ciente de que não sou uma pessoa infeliz. E contente em ter o que tenho diante de um mundo cada vez mais desbotado. Mistério, como diz o Gil, sempre há de pintar por aí... mas quero a sorte de dias mais tranqüilos e menos embaraços na hora de bater de frente com uma promessa concreta de felicidade. Não sou velha. Não sou jovem. Tenho o melhor dos dois mundos (como disse a alguns poucos que me são caros).
Não vou sujar minha barra tentando limpar a sujeira dos outros. Tenho uma lista enorme de motivos pra ser feliz. Vou aproveitar minha energia para partilhar mais, para escrever e-mails a amigos queridos, para conversar horas com minha irmã ao telefone, para voltar a cozinhar e morrer de prazer com isso. Para escrever, ler, ouvir, ver e sentir como sempre fiz: acreditando tanto na fantasia que ela acaba se transformando em realidade.
sábado, 15 de agosto de 2009
Não espero nenhum olhar, não espero nenhum gesto, não espero nenhuma cantiga de ninar. Por isso estou viva. Pela minha absoluta desesperança, meu coração bate ainda mais forte. Quando não se tem mais nada a perder, só se tem a ganhar.
Quando se pára de pedir, a gente está pronto para começar a receber. O futuro é um abismo escuro, mas pouco importa onde terminará a minha queda. De qualquer forma, um dia seremos poeira. Quem é você? Quem sou eu? Sei apenas que navegamos no mesmo barco furado, e nosso porto é desconhecido. Você tem seus jeitos de tentar. Eu tenho os meus. Não acredito nos seus, talvez também não acredite nos meus próprios. Não lhe peço que acredite em mim, peço que apenas olhe nos meus olhos e perceba o sentimento.
Não precisa nem falar nada, só venha, puxe uma cadeira, sente e permaneça aqui.
Quando se pára de pedir, a gente está pronto para começar a receber. O futuro é um abismo escuro, mas pouco importa onde terminará a minha queda. De qualquer forma, um dia seremos poeira. Quem é você? Quem sou eu? Sei apenas que navegamos no mesmo barco furado, e nosso porto é desconhecido. Você tem seus jeitos de tentar. Eu tenho os meus. Não acredito nos seus, talvez também não acredite nos meus próprios. Não lhe peço que acredite em mim, peço que apenas olhe nos meus olhos e perceba o sentimento.
Não precisa nem falar nada, só venha, puxe uma cadeira, sente e permaneça aqui.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
"Os dragões não permanecem. Os dragões são apenas anunciação de si próprios. Eles se ensaiam eternamente, jamais estréiam. As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena. Eles se esboçam e se esfumam no ar, não se definem. O aplauso seria insuportável para eles".
Caio F.
Essa é a mais pura verdade. Mas fechei os olhos e quando me dei conta eram cinco horas de uma típica madrugada de agosto. Mas o cheiro de hortelã e alecrim denunciava sua visita. É que eu também tenho um dragão que mora comigo. Não, isso não é verdade, como diria Caio F. Talvez ele me use, vestindo a casca singela que me envolve para improváveis aparições. Geralmente é num sonho. Costumo sonhar com dragões. Mas eles não têm a aparência dos dragões ilustrados. Os meus dragões não assustam. Costumam fazer estragos, mas são incapazes de grandes males. Eles fogem do paraíso, como avisou o Caio, por não se adaptarem à perfeição. O paraíso dos dragões é o conflito, nunca a harmonia. Por isso Caio escreveu em seu conto que, pessoas banais como nós, tentam inventar belezas artificiais para prendê-los... tudo em vão, pura fantasia. Os dragões de verdade detestam refeições frugais como essa que preparo agora em fogo brando, enquanto escrevo esse post. Olham de soslaio e até sentem algum cheiro mais perfumado que escapa da panela... depois nos deixam, como sempre. Mirando longe, pontos imaginários no espaço.
Eu tenho um dragão que me habita. Mas nem por isso entendo melhor o que isso significa.
Caio F.
Essa é a mais pura verdade. Mas fechei os olhos e quando me dei conta eram cinco horas de uma típica madrugada de agosto. Mas o cheiro de hortelã e alecrim denunciava sua visita. É que eu também tenho um dragão que mora comigo. Não, isso não é verdade, como diria Caio F. Talvez ele me use, vestindo a casca singela que me envolve para improváveis aparições. Geralmente é num sonho. Costumo sonhar com dragões. Mas eles não têm a aparência dos dragões ilustrados. Os meus dragões não assustam. Costumam fazer estragos, mas são incapazes de grandes males. Eles fogem do paraíso, como avisou o Caio, por não se adaptarem à perfeição. O paraíso dos dragões é o conflito, nunca a harmonia. Por isso Caio escreveu em seu conto que, pessoas banais como nós, tentam inventar belezas artificiais para prendê-los... tudo em vão, pura fantasia. Os dragões de verdade detestam refeições frugais como essa que preparo agora em fogo brando, enquanto escrevo esse post. Olham de soslaio e até sentem algum cheiro mais perfumado que escapa da panela... depois nos deixam, como sempre. Mirando longe, pontos imaginários no espaço.
Eu tenho um dragão que me habita. Mas nem por isso entendo melhor o que isso significa.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Para um coração que ficou frio: cuidados. Isso mesmo, carinhos quentes, chá de camomila. O desvelo de uma manta (cobrindo mãos e braços nevados), a intenção do bem guiando o olhar. A lenha crepitando na cabeça, trazendo os cheiros fortes de uma história : lavanda, angélica, gerânio. E assim vou vivendo, entre belezas reveladas pelas páginas de tantos livros, imagens de tantos filmes. Sons inusitados que sugerem outros temas nas músicas que fazem viajar, aqui mesmo, sentada na poltrona de tantos carinhos.
Vem,
te aceito em mim.
Seja-me um pouco, experimenta o mundo com meus olhos e te mostro a poesia que enxergo e como se esconde justamente se expondo no óbvio. Te recito os versos que vejo rabiscados nos muros, num cão que passa, num papel que voa, num toque, na voz de um estranho. No comum, no explícito, no banal e diário procuro o lirismo intrínseco que sempre há (e é suporte dos dias, principalmente os nublados).
Mergulha em mim (mas desvia dos meus seres abissais) e te mostro que sou pedra e onda, sal e sol, fluida e concreta - depende da maré. Te oferto também meu silêncio (presta atenção quando calo), ele te dirá mais sobre a origem do meu verbo que minha boca poderia tentar. Tenta você minha boca. Gosto. Mas não me ofereço desnuda - nunca estou nua de fato, tudo que vivi me cobre a pele e cada gesto sempre. Meu véu. Minha tatuagem (nem sempre visível). E depois dos meus versos, o reverso, e me mostra então como é ser você. Onde teu olho pousa, o que teu ouvido pesca, o que toca tua pele. Onde está tua flor (e o espinho).
Me deixa provar teu mundo e ele então fará parte do meu. Tua experiência comporá meu repertório - escuta, já somos tantas melodias, em cantar encantamo-nos. Casa tua alma com a minha e leva teu corpo por onde quiser. Sejamos sempre dois que se misturam mas não se invadem - penetrações consentidas. Entra em mim bem-vindo e me receba, e assim sejamos muito e mais por sermos ainda e sempre dois - o que te ofereço é soma, e não fusão.
Seja-me um pouco, experimenta o mundo com meus olhos e te mostro a poesia que enxergo e como se esconde justamente se expondo no óbvio. Te recito os versos que vejo rabiscados nos muros, num cão que passa, num papel que voa, num toque, na voz de um estranho. No comum, no explícito, no banal e diário procuro o lirismo intrínseco que sempre há (e é suporte dos dias, principalmente os nublados).
Mergulha em mim (mas desvia dos meus seres abissais) e te mostro que sou pedra e onda, sal e sol, fluida e concreta - depende da maré. Te oferto também meu silêncio (presta atenção quando calo), ele te dirá mais sobre a origem do meu verbo que minha boca poderia tentar. Tenta você minha boca. Gosto. Mas não me ofereço desnuda - nunca estou nua de fato, tudo que vivi me cobre a pele e cada gesto sempre. Meu véu. Minha tatuagem (nem sempre visível). E depois dos meus versos, o reverso, e me mostra então como é ser você. Onde teu olho pousa, o que teu ouvido pesca, o que toca tua pele. Onde está tua flor (e o espinho).
Me deixa provar teu mundo e ele então fará parte do meu. Tua experiência comporá meu repertório - escuta, já somos tantas melodias, em cantar encantamo-nos. Casa tua alma com a minha e leva teu corpo por onde quiser. Sejamos sempre dois que se misturam mas não se invadem - penetrações consentidas. Entra em mim bem-vindo e me receba, e assim sejamos muito e mais por sermos ainda e sempre dois - o que te ofereço é soma, e não fusão.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Às vezes descolo do mundo e escorro para dentro de mim. De lá as pessoas se tornam peixes exóticos num aquário. Espécies não irmãs. Descompreendo tudo para tentar um novo entendimento, em busca de uma virgindade do olhar que atinja o espanto que aponta o que o costume encobre. Descolo do mundo para tentar vê-lo por outros lados. Desencaixo-me e reformo-me. Sou-me diversamente. Experimento novos modelos de mim. Desconecto-me do externo para que dele não dependa o chão onde me apóio - meu pé caminha sobre possibilidades, algumas são pedregulhos que chuto, outras são rochedos que escalo. Entro e saio do mundo trazendo o coração nas mãos como um filho cujo choro calo, como monte de neve que carrego pelo deserto, como brasa viva que me queima os dedos.
Às vezes o mundo descola de mim. E o peixe exótico sou eu.
Às vezes o mundo descola de mim. E o peixe exótico sou eu.
domingo, 9 de agosto de 2009
Minha alma fugiu. De repente enojou-se da selvageria desse mundo e então, quando dei por mim, ela já não estava mais aqui. Procurei com empenho, vasculhei cada canto, mas em vão. Minha alma não quer mais estar onde eu estou. Assim, vazia, debrucei-me na janela e fiquei observando a chuva. Os pensamentos estavam livres, mas não se manifestavam, porque nada aqui funciona direito sem minha alma. E essa chuva que não passa e esse meu corpo gelado (sou um cadáver, estou sem alma) e meus olhos lacrimejantes que podem ser comparados à vidraça por onde as gotas de chuva escorrem, tornam essa típica manhã fria de domingo ainda mais "nonsense". Sim, nada aqui tem sentido. Já não me reconheço, olho no espelho e só o que vejo é a figura de uma mulher estranha, trêmula. Espero que ela se arrependa e decida voltar, pois não consigo viver além de existir assim, sem alma.
Foi em uma dessas tardes chuvosas e convidativas à monotonia que ela se descobriu. O espelho, antes apenas mais um detalhe da decoração de sua imensa sala, passou a chamar-lhe à atenção. Minto. Não é isso. Não era o espelho, mas aquela imagem que ele refletia. Já não tinha os cachinhos castanhos, o olhar sereno, as sardas. Agora tudo se resumia a um furacão: os cabelos ruivos, os olhos misteriosos, a face enrugada. Nem tanto, exagero meu, pois ela se cuidava. Passou horas observando aquela em quem havia se transformado quase sem perceber. Então virou-se e caminhou sem pressa rumo à porta principal. Saiu. Deixou para trás um passado que vivera sem plenitude, para valorizar o presente do qual, no futuro, pretendia se orgulhar.
Foi em uma dessas tardes chuvosas e convidativas à monotonia que ela se descobriu. O espelho, antes apenas mais um detalhe da decoração de sua imensa sala, passou a chamar-lhe à atenção. Minto. Não é isso. Não era o espelho, mas aquela imagem que ele refletia. Já não tinha os cachinhos castanhos, o olhar sereno, as sardas. Agora tudo se resumia a um furacão: os cabelos ruivos, os olhos misteriosos, a face enrugada. Nem tanto, exagero meu, pois ela se cuidava. Passou horas observando aquela em quem havia se transformado quase sem perceber. Então virou-se e caminhou sem pressa rumo à porta principal. Saiu. Deixou para trás um passado que vivera sem plenitude, para valorizar o presente do qual, no futuro, pretendia se orgulhar.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Costumo ser indulgente com certos sentimentos. E intolerante em relação a outros. Hoje acordei com vontade de tomar chá, metida num roupão de flanela, com meu sapatinho-de-frio (feito pra usar em casa). Mas não pude. Fiquei com raiva de ter que sair na rua, onde o frio de 15 graus desafiava meu humor e minha capacidade de ser generosa e boa às 6:30h da manhã.
Às vezes concluo que espero demais da vida e das pessoas que dela fazem parte. Não parece ser verdade, mas tenho dentro de mim, lá no fundo, uma úlcera que queima, dói, uma úlcera de perfeccionismo.
Isso me afeta demais. Mais do que deveria.
Por que teimo em tornar as coisas tão mais difíceis? Estou subjulgada a ser assim pro resto da minha vida, querendo sempre mais, mais?
O meu trabalho anda me saturando, de tudo.
De falta de reconhecimento, falta de entusiasmo e confesso que não sei viver assim, e acabo não dando o melhor de mim no que faço. Sei que posso mais.
Na verdade, o que eu queria mesmo, traduz-se na doce voz de Elis Regina:
'Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais...'
Sim, a cada dia que passa, tenho certeza que a minha terapia é essa.
Às vezes concluo que espero demais da vida e das pessoas que dela fazem parte. Não parece ser verdade, mas tenho dentro de mim, lá no fundo, uma úlcera que queima, dói, uma úlcera de perfeccionismo.
Isso me afeta demais. Mais do que deveria.
Por que teimo em tornar as coisas tão mais difíceis? Estou subjulgada a ser assim pro resto da minha vida, querendo sempre mais, mais?
O meu trabalho anda me saturando, de tudo.
De falta de reconhecimento, falta de entusiasmo e confesso que não sei viver assim, e acabo não dando o melhor de mim no que faço. Sei que posso mais.
Na verdade, o que eu queria mesmo, traduz-se na doce voz de Elis Regina:
'Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais...'
Sim, a cada dia que passa, tenho certeza que a minha terapia é essa.
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