sábado, 27 de fevereiro de 2010

Fundos para dias de chuva

Sinto tua falta, baby, mas os passos no escuro não são suficientes para me fazer voltar (nas estradas, recolho pedras verdes e tantas novas paisagens) Cultuo as sobras, não disse?

Eu continuo acontecendo, entre episódios de sol e chuva. Entre pequenas descobertas que fazem exultar (como a facilidade com que  já transito entre os tantos lugares desse não lugar) e grandes espaços em branco que servem para rabiscar novas histórias de dentro. Não vou me abalar mais que o necessário. Sigo acreditando no poder salvador das palavras e mais ainda no poder regenerador dos silêncios. É isso...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

"E é inútil procurar encurtar caminho e querer começar, já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta é a glória própria de minha condição.

A desistência é uma revelação".

GH

P.S.: véspera de um grande dia. Decisão tomada, a serenidade se mistura a esse estado pouco claro que vai da excitação ao descaminho. Riso, lágrima, pensamentos imperfeitos. E eu dizia: ando com saudades da minha vida e ele disse: gosto de você também.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Cheio de remendos. Pensou e continuou andando, sem lembrar o nome do poema... nunca lembra o nome de qualquer coisa. Continua em plano detalhe aquela angústia fina que vai, vai, vai chegando perto do peito, vai varando, sai rasgando e o sangue pingando de todos os vasos.
Não sabe o que fala, ele diz, não sabe pra quem fala, ele pensa. E ela pergunta de novo, fala do sonho, fala da raiva, volta a pensar em se matar, como sempre nessas horas de vai-não-vai...
Mas não gosta de pensar muito, sabe? Prefere falar. E fala e volta a fazer cena, quase gritando, quase chorando. Volta a fazer as mesmas perguntas e a gesticular. Mas não transgride. Ela nunca passa daquele ponto que separa o indivíduo são do...


Como é mesmo o seu nome? Ele interrompe e finge desconhecer as regras dela, com aquele bom senso calculado. Ele interrompe e pede pra que ela volte. Diz que não era nada daquilo. Diz que naquela hora que não queria, queria mais que nunca.
Ambos fugiram do lugar. Mas sem tomar trem, barco ou avião. Seguiram a pé, cruzando todas as estradas quase num único fôlego, até as invisíveis, proibidas aos que não... mas ela resolveu voltar ao ponto. Aquele.
Quis acreditar que ainda daria tempo. Tinha que dar. Regaria dessa vez as plantas, seu único arrependimento. E também clamaria por vingança na frente do prédio. Recorreria a todos, até aos animais feitos santos. Mas esqueceu de acender o fogo. E se perdeu de vez na prosa caótica daqueles dias.



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010






Deve ter um que nos sirva ...

é, depois de alguns naufrágios, algumas derrotas, angústias, desapegos, renúncias, ainda continuamos aqui.

uns 3 anos já se passaram, não foi? sinto sua falta.

Ao fundo , For Blue Skies - Strays Don't Sleep.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Era romântica, mas ninguém podia saber. Sua sensibilidade à flor da pele era escondida até de si mesma. No seu quarto de adolescente quase mulher, ela ouvia seus cds ora sombrios e com solos pesados de guitarras, ora leves e eruditos, e assistia a filmes franceses, sufocando cada lágrima que as melodias e as cenas ternas faziam brotar do seu coraçãozinho de manteiga e porcelana chinesa.
Enquanto suas amigas, quase todas previsíveis e fúteis, sonhavam com casamento de véu e grinalda e filhos, carro do ano, roupas de grife e liam Paulo Coelho, Quando Nietzsche chorou, O código de Da Vinci e livros de auto-ajuda para estarem na moda.
Devorava toda a obra de Anais Nin, D.H. Lawrence e Hilda Hilst, lamentando em seus devaneios que os garotos, garotas e homens que conheceu e com os quais se envolveu, nada possuíam dos protagonistas que tanto a encantavam do imaginário daqueles autores.
Um cigarro atrás do outro, tatuagens nas regiões mais belas e sempre desnudas do seu maltratado corpo, lábios sempre vermelhos e insinuantes. Dava vazão ao seu personagem de mulher voluptuosa, fatal e sem compromissos nem arrependimentos, nos sábados à noite, quando extravasava seu tédio e desilusão em álcool, fumo, e corpos que colecionava e empilhava junto com as latas de cerveja e garrafas de vodca barata vazias.
Já que não havia momentos perfeitos, tampouco protagonistas de romance naquele rebanho de pessoas superficiais, insossas e repetidas, já que o amor como a união de duas metades era um mito destroçado pela modernidade, a profunda e estrangeira gozava.Mas eram gozos incompletos, mecânicos, insuficientes, que só desesperavam mais e mais a romântica deserdada e agrilhoada que se debatia dentro dela.No eterno retorno dos sábados à noite, se fantasiou mais uma vez. Fumo, doses, amigas e amigos rasos e fúteis em mesas de bar. Num desses bares, os mesmos olhos ariscos e solitários que a incomodavam sempre que os avistava.
Eles a incomodavam, e muito. Pertenciam a um sujeito estranho, com cara de louco, que parecia segui-la por onde ela fosse. Ele ficava lá no seu canto, sozinho, com as mãos no bolso, acompanhando e analisando atentamente cada movimento que ela fazia. Como ela era muito cobiçada por homens e mulheres, o considerava mais uma das suas insignificantes vítimas, que, embora soubessem do quanto ela lhes era inacessível, não conseguiam parar de contemplá-la e desejá-la. Mas naquela noite em particular, depois de mais de duas horas de olhares fixos e incisivos do sujeito esquisito sobre ela, acabou se irritando.
Para fugir deles, puxou pelo braço o cara mais desagradável daquela roda de chatos que inundavam com cantadas enfadonhas os seus ouvidos sensíveis, entrou no carro do distinto e foi embora.No caminho, a imagem daquela figura obsessiva não saía da sua mente. Defronte à sua casa, bêbada, em meio aos beijos e abraços agressivos do chato, ela só pensava nos olhares devassadores daquele cara esquisito. Incomodada com os amassos e com a violência do janota estúpido, ela saiu do carro sob protestos veementes do futuro advogado.
Entrou em casa, acendeu um cigarro, e com aqueles olhares inabaláveis na cabeça escolheu um cd e foi conversar com as estrelas na janela do sobrado. E lá estava, do outro lado da rua, na esquina, naquela madrugada silenciosa, com o mesmo olhar incisivo e com as mãos no bolso, o seu  enigma inquietante. Ela não acreditou no que via. O cara estava mesmo lá, ainda a encará-la.
Ela  sorriu para ele e disse: “Tá legal, cara, pode subir. Preciso te decifrar”. Ele também sorriu, escalou o muro da vizinha e entrou pela janela. Entreolharam-se. De repente, os olhares do cara esquisito ficaram doces e profundos. Muitos beijos, carícias e uma sensibilidade que até então só existia nas estórias em que ela mergulhava e se embevecia.Ela acordou como há muito não acordava. Havia dormido muito, pesado. Olhou do lado e encontrou sua cachorra  deitada sobre um pedaço de papel.