Era romântica, mas ninguém podia saber. Sua sensibilidade à flor da pele era escondida até de si mesma. No seu quarto de adolescente quase mulher, ela ouvia seus cds ora sombrios e com solos pesados de guitarras, ora leves e eruditos, e assistia a filmes franceses, sufocando cada lágrima que as melodias e as cenas ternas faziam brotar do seu coraçãozinho de manteiga e porcelana chinesa.
Enquanto suas amigas, quase todas previsíveis e fúteis, sonhavam com casamento de véu e grinalda e filhos, carro do ano, roupas de grife e liam Paulo Coelho, Quando Nietzsche chorou, O código de Da Vinci e livros de auto-ajuda para estarem na moda.
Devorava toda a obra de Anais Nin, D.H. Lawrence e Hilda Hilst, lamentando em seus devaneios que os garotos, garotas e homens que conheceu e com os quais se envolveu, nada possuíam dos protagonistas que tanto a encantavam do imaginário daqueles autores.
Um cigarro atrás do outro, tatuagens nas regiões mais belas e sempre desnudas do seu maltratado corpo, lábios sempre vermelhos e insinuantes. Dava vazão ao seu personagem de mulher voluptuosa, fatal e sem compromissos nem arrependimentos, nos sábados à noite, quando extravasava seu tédio e desilusão em álcool, fumo, e corpos que colecionava e empilhava junto com as latas de cerveja e garrafas de vodca barata vazias.
Já que não havia momentos perfeitos, tampouco protagonistas de romance naquele rebanho de pessoas superficiais, insossas e repetidas, já que o amor como a união de duas metades era um mito destroçado pela modernidade, a profunda e estrangeira gozava.Mas eram gozos incompletos, mecânicos, insuficientes, que só desesperavam mais e mais a romântica deserdada e agrilhoada que se debatia dentro dela.No eterno retorno dos sábados à noite, se fantasiou mais uma vez. Fumo, doses, amigas e amigos rasos e fúteis em mesas de bar. Num desses bares, os mesmos olhos ariscos e solitários que a incomodavam sempre que os avistava.
Eles a incomodavam, e muito. Pertenciam a um sujeito estranho, com cara de louco, que parecia segui-la por onde ela fosse. Ele ficava lá no seu canto, sozinho, com as mãos no bolso, acompanhando e analisando atentamente cada movimento que ela fazia. Como ela era muito cobiçada por homens e mulheres, o considerava mais uma das suas insignificantes vítimas, que, embora soubessem do quanto ela lhes era inacessível, não conseguiam parar de contemplá-la e desejá-la. Mas naquela noite em particular, depois de mais de duas horas de olhares fixos e incisivos do sujeito esquisito sobre ela, acabou se irritando.
Para fugir deles, puxou pelo braço o cara mais desagradável daquela roda de chatos que inundavam com cantadas enfadonhas os seus ouvidos sensíveis, entrou no carro do distinto e foi embora.No caminho, a imagem daquela figura obsessiva não saía da sua mente. Defronte à sua casa, bêbada, em meio aos beijos e abraços agressivos do chato, ela só pensava nos olhares devassadores daquele cara esquisito. Incomodada com os amassos e com a violência do janota estúpido, ela saiu do carro sob protestos veementes do futuro advogado.
Entrou em casa, acendeu um cigarro, e com aqueles olhares inabaláveis na cabeça escolheu um cd e foi conversar com as estrelas na janela do sobrado. E lá estava, do outro lado da rua, na esquina, naquela madrugada silenciosa, com o mesmo olhar incisivo e com as mãos no bolso, o seu enigma inquietante. Ela não acreditou no que via. O cara estava mesmo lá, ainda a encará-la.
Ela sorriu para ele e disse: “Tá legal, cara, pode subir. Preciso te decifrar”. Ele também sorriu, escalou o muro da vizinha e entrou pela janela. Entreolharam-se. De repente, os olhares do cara esquisito ficaram doces e profundos. Muitos beijos, carícias e uma sensibilidade que até então só existia nas estórias em que ela mergulhava e se embevecia.Ela acordou como há muito não acordava. Havia dormido muito, pesado. Olhou do lado e encontrou sua cachorra deitada sobre um pedaço de papel.
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