Nesse mundo estranho, tenho lá minhas particularidades. Mas acontece que supero de longe a esquisitice do mundo ao nascer paralelamente a qualquer outra existência. Nasci como se a natureza, entediada, desenhasse uma ironia viva que anda e fala.
Sou possuidora-de-mundos.
Por uma contingência uterina inexplicável, nasci com uma sensibilidade desgraçada que mostra sua presença em cada instante dos meus estranhos dias e de minhas meditativas noites. É em mim que a gente de outra estirpe põe apelidos, acha estranha, esquisita. Sou uma “the freak” do mundo.
Vivo com uma constante sensação de deslocamento que não passa por mais que eu queira e parece que quanto mais resisto,mais evidente se torna completo o isolamento. Posso até ficar alegre, enturmada,parecendo “normal”, mas eu sei que sou diferente.
O mundo inteiro pode ter sobre mim uma opinião que passa a km do que eu vejo dentro de mim. É por isso que sempre causo espanto a toda gente e mesmo às pessoas mais próximas costumam me dizer coisas do tipo: “eu não sabia que você era assim...”. Eu escuto muito disso. Não importa como tenha sido meu dia e minha noite, cedo ou tarde, quando eu me deito e apago a luz eu a encontro novamente. Encontro o que? A solidão.
Nas noites, nos bares e nas festas pode-se flagrar-me por um instante ensimesmada, pensativa, melancólica. Quando me percebo olhada, me endireito e se me perguntam se tenho alguma coisa eu sempre nego, dou um sorriso e mudo de assunto. Mas não importa o que pareço ser para o mundo inteiro.
É como se sobre mim tivesse caído uma praga de isolamento existencial. Essa mágoa da solitude, que não me abandona nunca, é algo que a maioria deles não entende. Sei apenas que ela existe e que vive a me incomodar, a ferir-me e por isso talvez digo como Camões disse:
'Que dias há que n’alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei por quê.'
Tenho na alma um abismo grande, largo, profundo e que parece não ter fim. Por causa disso tenho uma alma grande, larga e profunda o bastante para acomodar esse abismo e por causa desta grandeza,desprezo as mesquinharias e os sentimentos pequenos.
Aspiro às emoções elevadas porque são elas as únicas que me enchem a alma e de algum modo suprimem a falta que eu sinto. Assim, não é difícil entender porque eu possuo grandes sentimentos e porque vivo as grandes paixões! Sou possuidora-de-mundos porque os mundos que carrego comigo, são mais vastos e mais tempestuosos que o real. É incrível como toda essa grandeza ainda não é o bastante! Quando amo, a metáfora da cara-metade jamais pode ser tão bem empregada do que quando se aplica a mim. A minha vida é um poema vivo, é uma sinfonia em plena execução.
Possuo algo de poético e de sublime em minha existência encravada no meio do mar da normalidade trivial. E sou incompreendida. Sempre, sempre incompreendida como o foi Van Gogh, com certeza um deles. Ninguém vê a poesia personificada nestes meus espíritos inquietos, às vezes nem mesmo eu. Todos acham poéticas as vidas de Van Gogh, de Virginia Wolf, de Quental, de Chopin ou de Nietzsche... mas Van Gogh trocaria sua vida pela de Théo, Virginia pela de Vanessa, Quental pela de Castilho, Chopin pela de Litz e Nietzsche, apesar do Ecce Homo, pela de Peter Gast. São as vidas e as coisas belas que ninguém quer ter... a velha história da faca de dois gumes.
É por muito me sentir deslocada que eu virei andarilha, procurando debaixo de cada pedra de calçamento um poema, em cada acontecimento uma história, dentro de cada pessoa uma música. E é aí que sinto as grandes paixões. Minha imaginação trabalha a 48.900 rotações por minuto. Eu idealizo, mesmo que não quero, eu idealizo. Mais que isso: eu vivo minhas idealizações. Simplesmente não dá pra evitar. Carrego alguma coisa de infinito nos olhos, sou aquela que você sente o coração bater mais forte quando me abraça, sou a que pareço por a paixão de uma vida inteira num beijo, sou a que coloca tal poesia no dia-a-dia, que quando amo e sou amada,me contento com tão pouca coisa fora de minha paixão que se diria que posso viver dela. Se por um lado tenho alguma mágoa, por outro sou a mais feliz do mundo quando amo, pois somente assim respiro a plenos pulmões. Mas o problema é que a única pessoa que soluciona minha mágoa é a da qual eu mesma sou a solução... é uma pessoa igual a mim... é um possuidor-de-mundos. E eu, para desgraça de mim mesma, sou rara, muito rara.
Nenhum comentário:
Postar um comentário