quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Clarice,

Caio Fernando Abreu dizia que tinha vocação para magoar os outros e a si mesmo. Comigo invariavelmente acontece a mesma coisa. Chove a cântaros por aqui. O trabalho continua monótono e eu louca por outra vida. Mas é sempre assim. Deve ser signo, sina. Peixes  parece nunca estar satisfeito com nada. Você sabe disso. Tenho tentado reclamar menos. Já não me lamento como antes. Mas querer dias diferentes e um cotidiano menos maçante é o mínimo que posso pedir. Mas a quem? Aos céus? Ontem retomei a releitura de “A Invenção de Morel”. Amo esse livro. É de uma angústia criativa que nos impele a sair do canto, largar a inércia e tentar mais. Nem que seja alimentando o plano imaginário (coisa que faço tão bem). Ousadia. Foi isso que pensei no dia que decidi largar tudo. Desde então fiz tanta coisa. E isso ninguém me tira. Ter um passado, contar a própria história, tocar nos fatos através de fotografias, cartas, bilhetes, pequenos fragmentos que enchem agendas, caixas, páginas marcadas de livros. E música. Não existe nada que evoque mais a memória afetiva que os fundos musicais que formam a trilha sonora da nossa vida. Vou me embrulhar ao chegar em casa nesse dia de chuva e certo frio. Fazer cabaninha com o edredom e ouvir músicas antigas. Sozinha, mas, dentro do possível, feliz.

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