"Desculpa, digo, mas se eu não tocar em você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só essa vontade quase simples de estender o braço para tocar você, faz tempo demais que estamos aqui parados conversando nesta janela, já dissemos tudo que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação impressão ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e, com a ponta dos meus dedos, tocar você, natural que seja assim: o toque, depois da compreensão que conseguimos, e agora".
Caio Fernando Abreu, in Anotações Sobre um Amor Urbano
Leio Ovelhas Negras pela quarta vez, talvez em busca de outros sentidos. Estava no meio de uma pesquisa sobre Ana C. quando me deparei com uma frase do Caio falando dela, da convivência dos dois durante a permanência dele em Santa Tereza no início dos anos 80... li-os separadamente e depois tentei imaginar os abismos maiores que os istmos.
Será que Ana C. gostava de samba? Tão inglesa... será que ia ao Parque Lage, caminhar no jardim, final da tarde, escurecendo? Lembrei do parque, um dia, final da tarde, escurecendo. Hoje ou amanhã nem sei direito, um ano. Vigília consentida na madrugada em busca de novas histórias para o filme. Tantas mortes...
"O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, ah, tão presa! Esses mosquitos que
não largam! Minhas saudades ensurdecidas por
cigarras! O que faço aqui no campo declamando aos
metros versos longos e sentidos? Ah que estou
sentida e portuguesa, e agora não sou mais veja, não
sou mais severa e ríspida: - agora sou profissional".
Ana Cristina Cesar, in A Teus Pés
P.S.: o seu olhar melhora o meu. Nunca esqueça disso.
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