domingo, 30 de agosto de 2009

lesamant

Sentimento do Mundo

O ano de 1968 é considerado seminal para a história contemporânea e já foi tema de livros, filmes, peças de teatro, músicas. Lembro uma vez ter lido um texto de Olgária Mattos sobre a paixão das barricadas, os sentidos amplos das palavras de ordem, o maio de 68 em Paris. Hoje assisti ao intenso "Amantes Constantes" ("Les Amants Réguliers", 2004), de Philippe Garrel. Sobre o tema já havia visto as versões de Louis Malle ("Loucuras de uma Primavera", 1969) e Bernardo Bertolucci ("Os Sonhadores", 2003) e respeito ambas. Mas o filme de Garrel nos comunica mais nas suas três horas de pura aridez poética.

O protagonista, vivido por Louis Garrel (filho do diretor), é um poeta que transita entre as agitações revolucionárias das ruas e uma "república" de artistas e desocupados burgueses. O ópio, as divagações filosóficas e a necessidade de ação (são inúmeras as perseguições policiais pelos becos e telhados de uma Paris literalmente em chamas) alimentam boa parte das cenas, num clima nouvelle vague que vai da fotografia em preto e branco até o ar blasé dos personagens principais. Mas nada me tocou tanto quanto à educação sentimental de François e Lilie. Como eles se encontram e se perdem, como eles se adivinham e ao mesmo tempo se desconhecem, evidenciando o quanto somos ignorantes em matéria de amor.

Quando as luzes acendem, percebemos que tanto o mundo quanto nós, seres humanos, continuamos incorrendo nos mesmos erros: passamos da euforia à desilusão com a mesma intensidade. Acreditamos e deixamos de acreditar com uma facilidade quase irresponsável. Em tempos de descompasso no mundo, o filme de Philippe Garrel é obrigatório. Nos mostra como um ano divisor-de-águas como foi 68, de fato, não acabou. Seu projeto (semente?), a revolução dos valores, está apenas ensaiando novas formas de eclodir e vingar, para quem sabe, um dia, florir.

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